Timóteo, Gov. Valadares – Saímos dos trilhos, ganhamos o dia..

Pode parecer estranho e diferenciado, mas minha história não inclui grandes destinos, hotéis de luxo ou parques multitemáticos. Se espera ler sobre a imponência da Estátua da Liberdade, a grandiosidade da Muralha Chinesa, a magia da Disney World ou as maravilhas da Polinésia Francesa, este com certeza não é um post indicado. Minha narrativa é simples, excêntrica e inacreditável ao mesmo tempo, a típica viagem que o dinheiro não compra.

No alto dos meus 10 anos eu já havia cruzado minha cidade de helicóptero, boa parte do país de carro e o Atlântico de avião. Um desejo, no entanto, permanecia irrealizado: Eu queria viajar de trem! O transporte ferroviário sempre monopolizou minha intenção, era algo atípico, fantástico, justificável desde características mais emblemáticas como a representatividade histórica, até peculiaridades como tamanho, barulho e maquinaria.

Era uma sexta, já a noite, o ano 2001. A proposta desferida pelo meu pai era tão tentadora quanto inesperada, ir de trem entre as cidades mineiras de Timóteo e Governador Valadares, culminando o passeio com uma visita ao Estádio José Mammoud Abbas, onde acompanharia um jogo do Atlético, meu clube do coração, contra o Democrata, equipe local.

Trem - Timóteo para Governador Valadares

Saímos no sábado, de manhãzinha, da antiga estação de Timóteo. O trajeto estava longe de qualquer resquício de glamour, o trem era velho, ultrapassado, abolindo quaisquer possibilidades de deslumbre de minha parte. Tenho que admitir, minha cabeça de menino havia idealizado um passeio menos monótono, mas toda essa calmaria viria a tomar caminhos inesperados. Na altura do município de Periquito, a comitiva, por problemas de funcionamento, interrompia subitamente seu percurso. Estávamos nós agora, eu, meu pai, minha mãe e meu primo, isolados no meio do nada, assistindo tudo se transformar em uma tragédia.

Quem conhece a região entenderá quando eu disser: o calor era infernal! Olhando ao redor era perceptível que a tentativa de buscar qualquer sinal de civilização era inútil. Celular? Nem pensar, não havia sinal. Lembro-me que por volta de 11h00min começamos a enxergar nossas possibilidades de ir ao jogo se perdendo. Começamos a caminhar rumo à rodovia mais próxima, percurso longo, desgastante. Em certo ponto fomos atacados por um enxame de marimbondos, eram muitos, e minha lembrança mais concreta da viagem era agora um calombo na nuca.

Durante o percurso avistamos do lado oposto ao destino, um casebre ao longe. Discutimos e decidimos conferir do que se tratava, visto que a sede e a fome já incomodavam a algum tempo. Ao chegar lá constatamos que o local parecia abandonado, a frustração era expressiva no rosto de cada um, e meu pai não parava de repetir: “Programa de Índio!”.

Trem - Saída de Timóteo para Governador Valadares

Trem – Timóteo para Governador Valadares

Já exaustos, esperamos por lá mesmo, debaixo de uma árvore, e quando resolvemos ir embora avistamos uma velha senhora vindo em nossa direção. Era a dona da casa, que educadamente nos acolheu. O sinal não era dos melhores, mas ali mesmo, na casa daquela senhora, ouvi pelo rádio a vitória do Atlético por 3 a 2. Esperamos até a noite, quando chegaram de cavalo os filhos e o marido da senhora, e foi assim mesmo, por meio daqueles eqüinos, que fomos levados até a rodovia pelos rapazes. Lá meu pai finalmente conseguiu usar o celular e pedir ajuda, que veio poucas horas depois.

Na volta, a surpresa que viria a fechar com chave de ouro esse dia inesquecível. Já de carro, voltando para casa, avistamos o ônibus do Atlético estacionado em uma churrascaria à beira da estrada. Paramos, contamos nossa situação aos jogadores, que não seguraram os risos. A tragédia agora era comédia, peguei autógrafos e fui até presenteado com uma camisa pelo zagueiro Hélcio.

Não quero apelar para um moralismo sentimental, mas são nessas situações, quando tudo dá errado, que o companheirismo de nossos parceiros de viagem é colocado à prova. Percebi o quão família é minha família, unida na maior das desgraças, gargalhando a cada adversidade. É estranho que uma viagem humilde, a qual andei de trem e cavalo, possa me levar a um destino paradisíaco por meio dessa promoção. Sequer sei se minha narrativa se enquadra nas exigências, mas estou certo de que dias como esse ficam para sempre na memória.

Virgílio Amaral – rafaelasoraggi.blogspot.com

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Aldo Ferry 15-11-2010 Atleticano eh feliz até nas adversidades , rs GALOOOO
Alessandra 13-11-2010 ÓTIMO!!!
Alessandra 13-11-2010 VOTED!!!! Muito bom!
Andreia 13-11-2010 muito legal a historia. Antonio Dias/MG
Galerta do Vale 13-11-2010 oi, Virgilio, Galera de Fabricano, torce por voçê.
vó Carminha 12-11-2010 Oi, Virgilio junior, A vó Carminha, falou para voçe pedir voto igual os politicos, vamos para frente.
marta carneiro 09-11-2010 Oi Virgilio, amei sua história. Será que se preciso, voce faria outra aventura de novo, e de novo, quantas vezes for possível?: Beijos. Tia Marta. hehehehehehe.
Laís Ferreira Nelvam Brusch 09-11-2010 !Oi Virgílio, sou neta da vó Januária, ela me pediu pra votar na sua história, legal, hem? Boa sorte!
Januári Ma. Nelvam Ferreira 09-11-2010 Januária Ma. Nelvam Ferreira says: November 9, 2010 at 1:44 pm (UTC 0) Reply Olá, Virgílio, conheço D. Elvira, sua vó, aluna de pintura, na casa da partilha, muito esforçada por sinal, ela me indicou vc para votarmos! Realmente sua história foi muito interessante, mas hove muito sofrimento, menino, é isso que dá ser torcedor do galo, sofrer…sofrer…sofrer, parece que é infinito, rsrs… e continua sofrendo, não é? Muda o tim e acaba com essa tortura!!!! No Cruzeiro é so alegria… rsrs… mas mesmo assim, parabéns pelo seu texto, foi muito bem escrito e ilustrado. Abraços e boa sorte - did not return any Web search results.
Januária Ma. Nelvam Ferreira 09-11-2010 Oi, Vírgílio, sou amia e professora de pintura da sua avó, D.Elvira, na Casa da Partilha, aqui do meu bairro S. Domingos. Ela é muito dedicada, me indicou sua história para votarmos, eu e minha familia, li e achei muito intessante, mas que sofrimento, hem? Se vcs tivessem ido pra ver o Cruzeiro, com certeza, a história teria tomado outro rumo...rsrsrs... com certeza teriam passado menos sufoco!! E o pior que eese sufoco parece ser infinito, não é? Venha pro azulão, menino! Esse só tem alegria...rsrsrs... brincadeira, viu? Parabéns pelo seu texto, foi muito bem escrito e ilustrado! Abraços, e boa sorte, torcemos por vc! Deus o abençoe!
Januária Ma. Nelvam Ferreira 09-11-2010 Oi, Virgílio, sou professora de pintura da sua vó, D. Elvira, na casa da partilha,aqui no bairro S. Domingos, ela é uma aluna muito dedicada. Ela me indicou sua história para votar! Achei muito interessante, e inteligente! Seu texto foi muito bem escrito e ilustrado! Pena foi o sofrimento, que passaram. Que sufoco, heim? Ainda bem que teve um final feliz.. Mas, olhe se vcs tivessem ido para ver o Cruzeirão, com certeza não teriam passado por nada disso, pois nosso time só dá alegrias!!! rsrsrs... Venha pro nosso lado que sua história com certeza vai mudar, e pra melhor, é claro!!! rsrsrs... Mas mesmo assim parabéns, e estamos torcendo por vc, vou continuar te indicando para meus amigos tbm... boa sorte, Deus o abençoe!
Januária Ma. Nelvam Ferreira 09-11-2010 Olá, Virgílio, conheço D. Elvira, sua vó, aluna de pintura, na casa da partilha, muito esforçada por sinal, ela me indicou vc para votarmos! Realmente sua história foi muito interessante, mas hove muito sofrimento, menino, é isso que dá ser torcedor do galo, sofrer...sofrer...sofrer, parece que é infinito, rsrs... e continua sofrendo, não é? Muda o tim e acaba com essa tortura!!!! No Cruzeiro é so alegria... rsrs... mas mesmo assim, parabéns pelo seu texto, foi muito bem escrito e ilustrado. Abraços e boa sorte!
Virgílio 09-11-2010 Irônico justo você dizendo que jogos do Saci em Valadares não rendem problemas
Paulo Valadares 08-11-2010 Olá Virgílio, sou colega de trabalho da sua tia Ana na Prefeitura de Fabriciano. Adorei sua narrativa contando os fatos ocorridos na sua viagem de trem tenho que confessar que também adoro trem. Sabe é muito curioso, mas geralmente as coisas imprevisiveis constumam ser mais marcantes do que aquela nas quais planejamos tanto. Olha parabéns pela a história, gostei muito.
Nathália 08-11-2010 Um contador de histórias...depositou de verdades em sentimentos e compartilhou-os conosco. Parabéns!
Maurício Júnior 08-11-2010 VJ, Se fosse pra ver o jogo do Saci nada disso tinha acontecido, mas sair de Fabri pra ver jogo do Galo ai já começou o AZAR. Vc mandou muito bem no texto, continue assim felicidades. Júnior
Larissa 08-11-2010 Texto maravilhoso !!!! Parabéns!
Alice Arantes 07-11-2010 VJ, Vc é o cara! Escreve como ninguem! Bjos...
Roseane Brandão 05-11-2010 BOm a Vida é cheia de surprezas
Roberto Nandino 29-10-2010 Que sortudo!