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Foto: Cristian Knepper/Divulgação Ilha do Caju

Por Luíza Silva


Em lugar da carnaúba, o ecoturismo
Catadores de caranguejos
Rio acima
Reserva protegida
Miniguia

Embrenhar-se pelo labirinto do Delta do Rio Parnaíba, o único em mar aberto das Américas e o terceiro maior do mundo, é a escolha perfeita para quem aprecia o contato com a natureza e o sossego profundo. Ao longo do caminho, descobre-se uma parte do Brasil ainda pouco conhecida dos turistas, feita de areias brancas, catadores de caranguejos e fauna e flora intocadas.


Em lugar da carnaúba, o ecoturismo

Foto: Marcelo Dau/Divulgação Ilha do CajuLocalizado na divisa do Maranhão com o Piauí, o delta se espalha como dedos de uma mão aberta por cinco barras: Iguaraçu, Canárias, Caju, Melancieiras e Tutóia, ocupando 2.700 quilômetros quadrados. Desta área, 70% fica no território maranhense, composto pelos municípios de Tutóia, Paulino Neves e Araióses.

Se, no passado, a exploração da carnaúba foi o maior negócio da região, hoje o turismo ecológico tem se firmado como uma das grandes atrações. O primeiro a desbravar o local foi o navegador português Nicolau Resende, que, em 1571, teria naufragado ali com uma nau carregada de ouro.

Depois de procurar, durante 16 anos, a sua valiosa carga, que jamais foi encontrada, o navegador descobriu o delta, batizado assim porque a foz do rio tem a forma da letra grega, que é representada por um triângulo. Outros deltas em mar aberto, ou oceânicos, são encontrados na foz dos Rios Nilo, na África e em Mekong, na Ásia.

O Delta do Parnaíba tem 90 quilômetros de extensão e 30 quilômetros de largura, onde estão os igarapés, os mangues, as dunas e as praias de rio. Há ainda 80 ilhas e ilhotas, entre elas a Ilha Grande, do Paulino, do Caju, as Canárias e a Ilha Grande de Santa Isabel, que ocupam cerca de 80 mil hectares.

Para qualquer lugar que se olhe, é impossível não admirar a riqueza da fauna e da flora locais. Vale a pena acompanhar o balé aquático dos esquisitíssimos peixes quatro-olhos. Dois enormes olhos saltados para fora são suas principais característica. O mais interessante é saber que a metade superior está adaptada para que o peixe veja fora da
água e a metade inferior, para que veja o que acontece dentro do rio.

Catadores de caranguejos

Foto: Marcelo Dau/Divulgação Ilha do CajuOs moradores do povoado de Carnaubeiras, no interior de Araióses, fazem da harmonia com a natureza uma tradição, vivendo da cata do caranguejo e da pesca. Eles formam a maior comunidade de catadores do País.

Praticamente toda a produção é mandada para Fortaleza. Lá, o produto é vendido por um preço até dez vezes maior do que o valor recebido pelos pescadores. O visitante pode se hospedar em Araióses ou em Tutóia, se não se importar em ficar em hotéis e pousadas bastante simples.

Para se conhecer melhor o Delta das Américas, como também é chamado, o lugar mais indicado para a hospedagem - e para mais que isso - é a Ilha do Caju, que possui infra-estrutura turística. De Araióses até a ilha são duas horas de barco ou lancha, mas de Carnaubeiras até a ilha a travessia dura alguns minutos.

Rio acima

Foto: Marcelo Dau/Divulgação Ilha do CajuA viagem também pode começar no porto da cidade piauense de Parnaíba. De lá, são três horas rio acima e tudo depende dos caprichos da maré. Se o rio não estiver suficientemente cheio, o barco corre o risco de encalhar nos bancos de areia. Na ilha, uma antiga casa de fazenda foi transformada numa pousada para receber estudantes, pesquisadores e turistas com espírito aventureiro. Também foram construídos chalés para hospedar os visitantes.

O lugar permanece praticamente intocado desde 1847, quando se tornou propriedade
da família Clark. Recentemente incluída na lista de estabelecimentos que integram a
Associação Roteiros de Charme, a Pousada Ecológica Ilha do Caju é um convite ao descanso.

Foto: Marcelo Dau/Divulgação Ilha do CajuApesar da simplicidade, é possível perceber pequenos luxos, como camas king size nos chalés e um cardápio diversificado, comandado pelo chef Flávio Souza, que prepara patinhas de caranguejo, ostras, moquecas de robalo e suflês de mariscos. Mas se você estiver em busca do conforto tradicional - ar-condicionado, frigobar, telefone e televisão -, não precisa nem fazer as malas.

Para se ter uma idéia, a energia elétrica é fornecida por um gerador e banho quente está fora de questão. Embora pareça o contrário, nada disso faz tanta falta quando se está lá. À
noite, a TV pode ser substituída por uma roda de violão junto dos funcionários da ilha e a brisa do mar substitui perfeitamente o ar-condicionado.

Na hora de dormir, sapos, insetos e pássaros rompem o silêncio e formam uma verdadeira orquestra. Parece até que um só faz barulho quando o outro se cala!

Reserva protegida

Foto: Cristian Knepper/Divulgação Ilha do CajuDecretada Área de Proteção Ambiental em 1991, a ilha tem uma paisagem exuberante, formada por 25 quilômetros de praias virgens, igarapés salgados, dunas de areia branquíssima e lagoas de água cristalina. Nessa surpreendente combinação de ecossistemas, há ainda florestas de manguezais e pântanos. Diante dessas paisagens - que podem ser percorridas de barco, a cavalo, de jipe ou de trator - o importante é se deixar levar.

Não é preciso muita sorte para se deparar com veados, macacos, raposas, jacarés
e tartarugas-marinhas, que têm na ilha um abrigo seguro. As aves são uma atração à parte, principalmente os guarás - espécie de pássaros com penas coloridas por um vermelho incandescente. A revoada desses animais, que costumam procurar uma área chamada Ninhal para se reproduzir, enche de cor o céu da ilha, resultando num espetáculo emocionante.

Foto: Frenerich/Divulgação Ilha do CajuTodos os passeios na ilha são acompanhados de perto pelos guias locais, ótimos "mateiros". Estão sempre preparados para desatolar o jipe da lama dos pântanos ou para falar sobre plantas e bichos encontrados nas trilhas. Francisco de Araújo Silva, o Bal, aprendeu desde cedo a identificar os rastros dos animais e sabe quando está diante das marcas deixada por uma raposa, um tatu ou um veado.

Na Ponta das Melancieiras - uma espécie de Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses em miniatura -, dunas de areias brancas como talco se movem ao sabor do vento, dançando entre o mar e as lagoas de água doce e cristalina. Basta mergulhar numa delas para esquecer da vida. Nem fria nem quente, a temperatura da água convida a passar quase que o dia inteiro contemplando a natureza e pensando como Deus foi generoso com o Maranhão. E você pode olhar para todos os lados e se esforçar mas, nem assim, vai avistar ninguém.

Miniguia

- O Maranhão está investindo na restauração das principais rodovias e na ampliação dos aeroportos dos pólos de atração turística, como Barreirinhas, cidade que dá acesso aos Lençóis Maranhenses. A recuperação da MA-034, entre Chapadinha e Araióses, melhorou o acesso ao Delta do Parnaíba, que antes só era possível pelo Piauí. Na cidade piauense de Parnaíba, há um pequeno aeroporto, que recebe companhias aéreas partindo de São Luís. A viagem de barco de Parnaíba até a Ilha do Caju costuma ser feita em três horas.
- Na bagagem, convém levar roupas leves e não esquecer de itens importantes, como calça jeans, tênis, botas e protetor solar, além de um repelente poderoso. No início da manhã e no final da tarde, os mosquitos atacam impiedosamente.
- A temperatura no delta é praticamente constante, em torno de 27 graus.
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