Com
ou sem cilindro de oxigênio
Mesmo
quem nunca se aventurou debaixo d'água não resiste aos mares de
Ilhabela, a maior ilha costeira do Brasil. E nem é preciso muita habilidade
para se sentir um Jacques Cousteau de primeira viagem, observando de perto peixes,
anêmonas e crustáceos.
Localizada há
7 quilômetros da cidade de São Sebastião, a uma distância
percorrida em 15 minutos de balsa, Ilhabela se abre à leste para o Oceano
Atlântico, com mar agitado, e a oeste para o sossegado canal de São
Sebastião, onde, com um pouco de sorte, é possível deparar
com bandos de golfinhos e alguns tubarões solitários.
No total são
150 quilômetros de orla e mais de 40 praias, algumas somente acessíveis
por barco, o que aumenta o prazer de se mergulhar em locais quase selvagens.
Entre
Netuno e as estrelas-do-mar
Para
brincar perto da praia, em um mergulho livre, são necessários apenas
snorkel, nadadeiras e máscara. Mas para mergulhar com cilindro de oxigênio,
e os demais equipamentos de um mergulhador autônomo, é preciso fazer
antes um curso.
Os melhores points
para o mergulho livre ficam na Ilha das Cabras e nas Praias da Fome, da Feiticeira,
da Ponta do Ribeirão e da Caveira. A Ilha das Cabras é um santuário
ecológico, protegido por lei desde 1992, a menos de 2 Km da balsa. Um de
seus atrativos é uma estátua de Netuno, afundada a 7 metros de profundidade,
que se tornou ponto de encontro submarino entre os mergulhadores e lar de muitas
espécies de peixes, esponjas e estrelas-do-mar.
Como
alternativa à Ilha das Cabras, que costuma ser invadida pela turma do snorkel
nos finais de semana, há a Praia da Fome, ao Norte. Outro ótimo
ponto para iniciantes, onde um simples mergulho pode se transformar em um episódio
inesquecível, quando se observam do fundo as canoas coloridas dos pescadores
na superfície.
Quem já
tem as credenciais de mergulhador autônomo vai encontrar lugares especiais
na Praia do Jabaquara, na Ponta do Boi e no Saco do Sombrio. Em noites de lua
cheia, a Praia do Jabaquara é o destino perfeito para a prática
do mergulho noturno. As lanternas surpreendem lagostas, coloridos nudibrânquios,
uma espécie de lesma-do-mar, e polvos encolhidos em frestas nas rochas.
Entre as pedras, moréias se escondem e, se o mergulhador prestar bastante
atenção, poderá distinguir algumas arraias pequenas camufladas
no fundo de areia.
Da
pirataria ao mergulho em naufrágio
Até
o século 16, os únicos a explorar as águas de Ilhabela eram
os índios Tupinambás, que chamavam o local de Ciribaí, ou
"lugar tranqüilo". A tranqüilidade acabou em 1553, quando
os corsários ingleses Francis Drake e Thomas Cavendish adotaram as enseadas
de Ilhabela como esconderijos para os navios piratas, que atacavam os galeões
espanhóis e seus porões recheados de ouro embarcado nos portos de
Santos, São Vicente e Bertioga.
A rota da pirataria
durou até meados de 1592, quando Cavendish saqueou e incendiou a cidade
de Santos, buscando depois refúgio na ilha, onde, segundo alguns historiadores,
acabou enforcado por seus próprios marujos, que se amotinaram e nunca mais
deixaram a terra dos Tupinambás. A presença dos ingleses na ilha
explica a cor azul dos olhos de alguns caiçaras, descendentes dos piratas.
Da mesma forma
que as enseadas protegiam os navios, a névoa em torno delas também
era mortal. Desde o tempo dos piratas, Ilhabela contabiliza mais de 100 embarcações
afundadas em sua orla, a maioria a pique devido à traiçoeira neblina
da região. Passadas as tragédias, os navios afundados dão
origem a uma das modalidades mais excitantes do esporte: o mergulho em naufrágio.
Titanic
à brasileira
Para
quem está começando a mergulhar, há três naufrágios
de fácil acesso: o Velasquez , um navio inglês naufragado em 1908
na Ponta da Sela; o Aymoré, a pique em 1914, próximo da Praia do
Curral, a uma profundidade de 3 a 7 metros; e o Vapor Dart , que em 1894 encalhou
nas pedras de Itaboca. Pertencente à Mala Real Inglesa, o Dart está
a uma profundidade de 5 a 20 metros. Em todos os naufrágios, a biodiversidade
marinha é enorme porque o navio afundado transforma-se em um recife artificial,
lar de tartarugas, polvos e peixes típicos de recifes.
As águas
da ilha também ocultam tragédias, como o transatlântico de
luxo Príncipe de Astúrias, que se transformou numa espécie
de Titanic da América do Sul, por ser o acidente naval com maior número
de vítimas fatais. O desastre com o navio espanhol aconteceu em 1916, quando
um intenso nevoeiro pegou o comandante de surpresa nas rochas da Ponta da Pirabura.
Em poucos minutos, o navio inteiro afundou, num saldo de 445 mortos.
Durante dias, dezenas
de corpos foram jogados nas praias de Ilhabela e, segundo as lendas, os caiçaras
cortavam os dedos inchados dos mortos para arrancar seus anéis. Hoje o
Príncipe de Astúrias descansa a 45 metros de profundidade, em um
dos piores locais para mergulho, com água turva e muita correnteza, onde
somente mergulhadores muito experientes se arriscam.
Seja qual for o
tipo de mergulho escolhido, a beleza submarina de Ilhabela é tanta que
pouca gente resiste e mergulha de cabeça em cada centímetro cúbico
deste paraíso submerso.
Miniguia
- Ilhabela oferece
uma ótima infra-estrutura para a prática do mergulho, com cursos,
aluguel de equipamentos, barcos e saídas. O curso básico custa,
em média, R$ 380; o avançado R$ 430, e as saídas avulsas,
com equipamento incluído, R$ 100.
- Antes de cair
na água, saiba quais são as modalidades de mergulho e os equipamentos
que você vai precisar para praticar cada uma delas, lembrando que um curso
é imprescindível para quem quer conhecer o fundo do mar com total
segurança:
- Mergulho
livre - é feito sem nenhum equipamento de respiração
artificial. Os equipamentos necessários são máscara, snorkel
e nadadeiras.
- Mergulho autônomo
básico - é preciso fazer um curso que, em geral, é ministrado
em uma semana, com aulas teóricas e "batismo" no mar. O mergulhador
fica apto a descer até uma profundidade de 35 metros, utilizando equipamentos
como cilindro de oxigênio, regulador, colete equilibrador e roupa de neoprene.
O aluguel de cada equipamento custa cerca de R$ 10.
- Mergulho autônomo
avançado - com mais um curso o mergulhador fica habilitado a praticar
mergulho profundo, abaixo de 35 metros, noturno e em naufrágio. Os equipamentos
são os mesmos utilizados no autônomo, acrescidos de lanterna e bússola.
- O único
acesso a Ilhabela é feito através de um ferry boat, que sai da cidade
de São Sebastião a cada 15 minutos. Aos finais de semana, as filas
para fazer a travessia costumam demorar horas. Procure fazer reserva antecipada
do horário e dia da travessia.